quarta-feira, 20 de maio de 2020

Liquidez Corrente: um indicador essencial em tempos de crise


Em tempos de crise feito essa pandemia que estamos vivenciando, as empresas costumam apresentar dificuldades em quitar seus compromissos de curto prazo, seja pela queda na receita representada pelo deficit no número de produtos vendidos ou serviços prestados ou ainda, pela inadimplência.

Nesse sentido, um indicador contábil importante é a Liquidez Corrente.

Liquidez Corrente pode ser entendida como a capacidade de uma empresa honrar seus compromissos de curto prazo. Em termos matemáticos, é calculada da seguinte maneira:

Liquidez Corrente (LC) = Ativo Circulante / Passivo Circulante

Onde:

Ativo Circulante = contas a receber, estoque, caixa e etc.

Passivo Circulante = empréstimos, financiamentos, folha de pagamento, fornecedores e etc.

De posse do resultado obtido, podemos fazer a seguinte análise:

LC > 1 = Demonstra folga diante de uma possível liquidação das dívidas de curto prazo.

LC = 1 = Equivalência, ou seja, consegue cumprir suas obrigações de curto prazo, porém sem folga.

LC < 1 = Sem condições de quitar dívidas de curto prazo, teria que recorrer à empréstimos ou financiamentos, podendo comprometer ainda mais a saúde financeira da empresa.

Nesse sentido, fiz um estudo onde selecionei as principais empresas listadas na B3 cujo LC é maior do que 1, retirei as empresas com lucro líquido negativo e considerei aquelas com liquidez diária média de R$ 200.000, segue abaixo: 

                                            Fonte: Status Invest.

Existem outras dezenas de empresas com LC acima de 1, mas para não deixar o estudo tão extenso, me limitei às 30 primeiras da lista.

Além da LC precisamos entender qual o setor que a empresa está inserida, qual a sua margem líquida, se possui uma dívida alta e etc.

Destaquei algumas empresas de setores distintos para análise:
  • Consumo cíclico (Vestuário, Calçados): É um setor que já vem sendo prejudicado pela crise devido as medidas de isolamento social. Aqui temos representado a Grendene (GRDN3), Lojas Hering (HGTX) e a Vulcabrás (VULC3) fabricantes de calçados. As 3 empresas praticamente não possuem dívidas, possui uma boa LC, entretanto estão inseridas num setor que opera com margem líquida baixa, exceto a GRDN3 que possui uma margem líquida acima de 20%. Não sou entusiasta do setor, mas analisando friamente os números dificilmente essas empresas quebrarão no curto prazo.
  • Construção Civil: É um setor totalmente cíclico, apesar da taxa de juros estar no seu menor patamar e que em tese favoreceria esse segmento, a tendência é que ocorra uma desaceleração desse mercado. Eztec (EZTC3), Trisul (TRIS3), Tenda (TEND3), MRV (MRVE3) estão aqui representadas. Destaque para a EZTEC3 que possui um perfil de empreendimento voltado pra alta renda, operando com margem líquida excelente de quase 40%, sem dívidas e com alta liquidez corrente (6,18). 
  • Gás e Combustível: Representando pela Ultrapar (UGPA4), que possui uma margem líquida baixíssima, com uma dívida razoável, porém apresenta um certo fôlego dado sua liquidez corrente. Por estar num setor considerado essencial, acredito que a empresa conseguirá suportar essa crise, mas é preciso ter diligência nos custos para não sacrificar ainda mais sua margem de lucro.
  • Energia Elétrica: As empresas aqui selecionadas, Taesa e Alupar (ALUP11) estão no melhor subsetor de energia elétrica que é o de transmissão. Percebam a margem líquida absurda da Taesa (TAEE3/TAAE4) acima de 50%. Apesar de possuir uma dívida líquida / patrimônio líquido acima de 1, o seu perfil de dívida é controlado, dado que são dívidas de longo prazo e a empresa consegue quitar devido sua forte geração de caixa. Acredito que seja o setor que menos irá sofrer nessa crise, pois as empresas possuem uma receita previsível.
  • Bancos: Não consegui extrair os dados do Itaú e Santander, entretanto Bradesco e Banco do Brasil apresentaram LC abaixo de 1. Apesar disso, acredito que a liquidez corrente dos Bancos esteja num patamar favorável, uma vez que todos esses, exceto o Santander, fizeram provisões bilionárias contra possível inadimplência por parte dos clientes em decorrência da pandemia.
Conclusão

Na análise fundamentalista de empresas, analisar apenas um indicador pode ser perigoso. Em nosso estudo apresentado, por exemplo, foi retirado as empresas com lucro líquido negativo da análise, justamente para ressaltar que ter uma LC razoável não basta, afinal, uma empresa que só gera prejuízos a tendência é que sua dívida aumente ao longo do tempo e inevitavelmente, ela terá que queimar caixa e patrimônio para tentar se salvar, podendo chegar à falência.

Por isso que eu procuro sempre frisar a importância de analisar uma empresa como um todo, ou seja, o setor que está inserida, como ela ganha dinheiro, qual a sua margem de lucro líquido, sua capacidade de geração de caixa e etc. 

O intuito do post é mostrar que mesmo na crise e queda nas vendas e lucros, boas empresas podem sobreviver graças à sua LC. Mesmo que a empresa tenha trimestrais ruins, o que será comum até o final do ano (ou até mais, não sabemos) a empresa não deixará de ser boa. Portanto, você investidor, não saia vendendo suas ações desesperado achando que a empresa vai quebrar, se você investiu nessa empresa é porque acredita na sua gestão, então tenha paciência.

10 comentários:

  1. Bem, eu não acho um indicador muito útil, na verdade acho os índices de liquidez (corrente, seca e geral) meio inúteis. Sim, dá pra ter toda essa noção de ativos e passivos da empresa, mas veja, todos esses índices são extraídos unicamente dos dados de uma balanço patrimonial e o balanço patrimonial é estático, é uma representação momentânea da empresa no passado. Esses indicadores não refletem a dinâmica futura da empresa e a capacidade de pagamento sempre deverá levar em conta a condição futura de liquidez da empresa.

    Além disso, outra condição agravante que inibe por completo a utilização dos indicadores de liquidez corrente, seca e geral, advém de que, na realidade, os ativos circulantes, exceto as disponibilidades, não SÃO realizáveis! Não se utiliza os valores de conta a receber e estoques para pagar obrigações e dívidas, não servem pois não são realizáveis financeiramente no sentido estrito do termo. O que deve focar é no capital de giro ou na necessidade de capital de giro da empresa.

    O único indicador correto de liquidez que eu uso é o liquidez imediata.

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    1. Eu gosto de ver esse indicador acima de 1, pode ser meio inútil para prever o futuro, mas indica a saúde da empresa no momento da foto. É mais ou menos como fazer exames de sangue, você verifica sua glicose, colesterol etc na hora, mas não quer dizer que não vá ter problemas no futuro, é pra saber como a empresa está hoje mesmo, saudável ou não.

      Abraços

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    2. Escola para Investidores, obrigado pelo comentário e aula de contabilidade. Por isso eu disse que não devemos olhar apenas 1 indicador isolado, quis trazer uma visão macro e fazer uma relação com o setor que a empresa atua e sua margem líquida, no sentido do investidor não se desesperar e se desfazer das suas ações achando que tudo vai quebrar no curto prazo.

      Abraço.

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    3. Bilionário, gostei dessa analogia com os exames de sangue, faz muito sentido isso.

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    4. Sim, sempre olhando vários indicadores. Mas o que eu sou meio "pé atrás" e dizer que a empresa tem saúde financeira pelo indicador, coisa que você não disse. Boa analogia com a foto Bilionário, balanço patrimonial é pra isso mesmo! =)

      Acho que é meu estilo de analisar sempre tentar focar mais olhar pra frente

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  2. Gosto de analisar esse indicador também. Dentro de um ano o que entra e o que tem que ser pago, principalmente as dívidas de curto prazo.

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  3. Valeu Beto. Empresas com margem espremida geralmente trabalha com pouco capital de giro e muitas dívidas de curto prazo, por isso evito alguns setores, como por exemplo comércio e varejo. Ao contrário das transmissoras de energia, mesmo alavancadas me sinto tranquilo pela margem líquida e pelo perfil de dívida de longo prazo da empresa.

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  4. Bom dia
    Postagem muito interessante, abraços.

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    1. Bom dia Lucinalva!

      Obrigado pelo comentário e seja bem-vinda ao meu humilde espaço.

      Abraço.

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  5. Parabéns pela analise Senhor Colheita, obrigado pelo estudo.
    Este índice é muito interessante para se ter uma ideia de como anda a saúde da empresa.

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